CORRIDAS E USO DE MEIAS COMPRESSIVAS

Será que o uso de meias elásticas compressiva auxiliam na performance durante corridas e outros esportes?

Fisiologia das meias em corridas

O uso de meias compressivas na corrida fundamenta-se em benefícios teóricos voltados à melhora da performance e da recuperação física. A principal justificativa reside na melhora do fluxo sanguíneo, auxiliando a "bomba muscular" da panturrilha a aumentar a velocidade venosa e reduzir o acúmulo de sangue nas pernas. Teoricamente, esse mecanismo acelera a entrega de nutrientes aos tecidos e a remoção de metabólitos (como o lactato), otimizando a resposta fisiológica ao exercício.

No aspecto biomecânico, propõe-se que as meias reduzam a oscilação muscular e o estresse mecânico durante o impacto. Isso ajudaria a minimizar microlesões e a inflamação, prevenindo a dor muscular tardia (delayed onset muscle soreness, DOMS). Além disso, a compressão poderia elevar a propriocepção, permitindo que o atleta mantenha a potência muscular e o comprimento da passada por mais tempo.

Há melhora do desempenho com uso das meias?

De acordo com as evidências científicas mais recentes e abrangentes, não há melhora significativa no desempenho dos atletas com o uso de meias compressivas durante a corrida. Revisões sistemáticas e meta-análises indicam que o uso desse acessório não altera métricas cruciais de performance, como a velocidade de corrida, o tempo total de prova ou o tempo até a exaustão em comparação ao uso de meias comuns.

Embora existam alegações teóricas e comerciais sobre benefícios ergogênicos, os dados mostram o seguinte:

Parâmetros Fisiológicos: O uso das meias não altera a frequência cardíaca, o consumo máximo de oxigênio (VO2max) ou a eficiência ventilatória durante ou após o exercício.

Lactato Sanguíneo: Não foram observadas diferenças na remoção ou na concentração de lactato na corrente sanguínea que pudessem justificar uma melhora na performance.

Potência Muscular: Um estudo específico observou que, embora o tempo de corrida não tenha mudado, o uso de compressão baixa a média ajudou a manter a potência das pernas (medida através da altura do salto vertical) após o exercício, sugerindo uma possível redução da fadiga neuromuscular, mas sem ganho de velocidade prática.

Percepção do atleta

Em relação à percepção do atleta sobre o uso de meias compressivas, as referências indicam que não há benefícios significativos em comparação ao uso de meias comuns ou placebos. As evidências variam de "muito baixa" a "moderada" certeza dependendo do desfecho analisado.

Os principais pontos destacados pelas fontes sobre a percepção subjetiva são:

Esforço Percebido: Análises de múltiplos estudos (n=236 corredores) demonstram que o uso das meias não altera a percepção de esforço durante a corrida. Esse resultado se mantém mesmo em subgrupos específicos, como em corridas na esteira.

Dor Muscular: Não foram encontradas diferenças estatisticamente relevantes na percepção de dor muscular nos membros inferiores logo após a corrida ou durante a recuperação em comparação com meias regulares.

Conforto, Tensão e Dor: O nível de compressão afeta diretamente a sensação do atleta. Meias de baixa compressão (aprox. 12-15 mmHg) são classificadas como mais confortáveis do que as de alta compressão (acima de 23 mmHg). Meias com compressão elevada são frequentemente percebidas como muito apertadas e podem induzir dor, dormência ou sensação de "formigamento" em alguns corredores.

Estado Afetivo e Psicológico: O uso dessas vestimentas não produz mudanças significativas no prazer, desprazer ou nos níveis de ativação/entusiasmo (arousal) do atleta antes ou depois do exercício.

Conclusão: Vale a pena corredores usarem meias compressivas?

A conclusão principal é que o uso de meias compressivas durante a corrida não proporciona melhorias significativas no desempenho atlético, em parâmetros fisiológicos ou na percepção subjetiva de esforço em comparação ao uso de meias comuns.

No entanto, as evidências sugerem um benefício específico na manutenção da potência muscular (como a altura do salto vertical) após o exercício quando se utiliza compressão baixa a média, o que pode mitigar a fadiga neuromuscular.

Apesar da falta de evidência científica para ganhos perceptivos, muitos atletas mantêm fé nos efeitos de performance das meias, o que impulsiona sua adoção.

Caso o corredor opte pelo uso, as de baixa compressão são as preferidas por oferecerem maior conforto sem os efeitos ergonômicos negativos (como dor) associados às meias muito apertadas.

Referências bibliográficas

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Telles, G. F., Souto, L. R., Pazzinatto, M. F., Serighelli, F., Nogueira, L. A. C., & De Oliveira Silva, D. (2025). Wearing compression socks during running does not change physiological, running performance, and perceptual outcomes: A systematic review with meta-analysis. Journal of Sport Rehabilitation. Publicação on-line antecipada. https://doi.org/10.1123/jsr.2024-0410