MEIAS COMPRESSIVAS PREVINEM TROMBOSES EM VOOS?

As evidências científicas mostram que as meias elásticas compressivas são úteis para reduzir tromboses em voos prolongados. Veja aqui as orientações.

Trombose venosa em voos

A trombose relacionada a viagens aéreas, popularmente conhecida como "síndrome da classe econômica", refere-se ao desenvolvimento de tromboembolismo venoso (TEV) durante ou após voos de longa duração. O risco de formação de coágulos aumenta significativamente em trajetos superiores a quatro horas, sendo potencializado pela imobilidade prolongada, hipóxia hipobárica e baixa umidade no interior da aeronave. Estudos indicam que, a cada duas horas adicionais de voo, o risco de TEV cresce cerca de 26%.

Embora o risco absoluto seja baixo para a população geral, ele é substancialmente maior em grupos de risco, incluindo gestantes, obesos, idosos e pessoas com histórico de câncer, cirurgia recente ou trombofilia. Destaca-se que mulheres em uso de anticoncepcionais orais podem ter o risco elevado em até 40 vezes durante voos longos.

As meias de compressão graduada surgem como uma intervenção preventiva altamente eficaz. Evidências de alta certeza demonstram que seu uso reduz em aproximadamente 90% a incidência de tromboses assintomáticas. Adicionalmente, recomenda-se exercícios para as panturrilhas e hidratação adequada.

Fatores de risco para trombose em voos

Os fatores de risco para o desenvolvimento de tromboembolismo venoso (TEV) em voos, condição muitas vezes chamada de "síndrome da classe econômica", são divididos em dois grandes grupos: aqueles relacionados ao ambiente da aeronave e os inerentes ao próprio passageiro (fatores genéticos ou adquiridos),.

1. Fatores Relacionados à Viagem e à Aeronave

O microambiente da cabine atua como um gatilho para a coagulação sanguínea devido à combinação de vários elementos:

Imobilização Prolongada: A falta de movimento em assentos apertados causa a estase venosa (sangue parado) nos membros inferiores, facilitando a formação de coágulos.

Hipóxia Hipobárica: A menor pressão de oxigênio dentro da cabine em altitude de cruzeiro pode ativar vias de coagulação e reduzir a atividade fibrinolítica (capacidade do corpo de dissolver coágulos).

Baixa Umidade e Desidratação: O ar seco da cabine (umidade em torno de 10%) pode levar à hemoconcentração e aumento da viscosidade do sangue, favorecendo a trombose.

Duração do Voo: O risco aumenta consideravelmente em voos com mais de quatro a seis horas. Estima-se um aumento de 26% no risco a cada duas horas adicionais de viagem aérea.

Localização do Assento: Passageiros em assentos na janela apresentam risco dobrado comparados aos do corredor, pois tendem a se movimentar menos. Esse risco é ainda maior se o passageiro for obeso.

2. Fatores Relacionados ao Passageiro (Individuais)

Certos passageiros possuem maior predisposição à hipercoagulabilidade, o que torna a viagem aérea mais perigosa:

Histórico de Saúde: Ter tido episódios prévios de TEV, câncer ativo ou cirurgias e traumas recentes (especialmente nas últimas seis semanas) são fatores de risco potentes.

Hormônios e Gestação: O uso de anticoncepcionais orais (que podem elevar o risco em até 40 vezes durante o voo), terapia de reposição hormonal e o estado de gravidez ou pós-parto.

Características Físicas: Obesidade (IMC > 30 kg/m²), idade superior a 40 anos e extremos de estatura (pessoas muito altas, acima de 1,90 m, ou muito baixas, abaixo de 1,60 m).

Condições Genéticas: Presença de trombofilias (como o Fator V de Leiden ou deficiência de proteínas anticoagulantes naturais) e pertencer aos grupos sanguíneos não-O (A, B ou AB).

Outros: Doença venosa crônica (varizes), insuficiência cardíaca e tabagismo.

Estratificação de Risco

As fontes classificam os passageiros em categorias para orientar a profilaxia:

Baixo risco: Idade > 40 anos, obesidade leve ou cirurgia menor recente.

Risco moderado: Varizes, insuficiência cardíaca controlada, gestação ou uso de hormônios.

Alto risco: Histórico prévio de trombose, trombofilia conhecida, cirurgia de grande porte recente ou câncer ativo.

Qual tipo de meia deve ser usada em voos prolongados

Para escolher a meia de compressão adequada para viagens aéreas, as fontes sugerem focar em três aspectos principais: o modelo, a pressão exercida e o momento de uso.

Aqui estão as recomendações baseadas nos estudos analisados:

1. Modelo e Comprimento

A grande maioria dos estudos clínicos utilizou meias de compressão graduada abaixo do joelho (meia 3/4).

• Este modelo é o mais comum e foi o que demonstrou alta certeza na redução de coágulos assintomáticos.

• Embora um estudo tenha testado meias-calças (que cobrem até as nádegas), a evidência predominante favorece o modelo 3/4 por ser mais prático e igualmente eficaz na proteção do sistema venoso profundo.

2. Grau de Compressão (mmHg)

As fontes indicam que a pressão deve ser graduada, sendo maior no tornozelo e diminuindo em direção à panturrilha. Os níveis de pressão utilizados variaram, mas os consensos sugerem:

Para passageiros de alto risco: Recomenda-se o uso de meias que exerçam entre 15 e 30 mmHg de pressão ao nível do tornozelo.

Níveis estudados: Na revisão Cochrane, quatro ensaios utilizaram pressão de 20 a 30 mmHg e cinco utilizaram níveis menores, entre 10 e 20 mmHg. Ambos os níveis mostraram benefícios na redução da trombose assintomática.

3. Quando e Como Usar

Para garantir a eficácia, as instruções seguidas nos testes foram:

Colocação: As meias devem ser colocadas antes do embarque, geralmente de duas a três horas antes do voo (em alguns casos, até 6 a 10 horas antes).

Duração: Elas devem ser mantidas durante toda a duração do voo.

Ajuste: É vital que a meia não fique excessivamente apertada na borda superior (próximo ao joelho), pois isso pode comprimir as veias superficiais e, ironicamente, favorecer uma trombose superficial.

Quem deve usar meias compressivas em voos?

O uso de meias elásticas de compressão em voos é especialmente recomendado para passageiros que possuem fatores de risco para o desenvolvimento de tromboembolismo venoso (TEV), embora passageiros saudáveis também possam se beneficiar da redução do inchaço e do desconforto.

De acordo com as fontes, os grupos que devem priorizar o uso das meias são:

1. Passageiros de Alto Risco

As diretrizes internacionais, como as do Colégio Americano de Pneumologia (ACCP), recomendam fortemente o uso de meias para passageiros em voos de longa distância (geralmente acima de 4 a 6 horas) que apresentem:

Histórico prévio de trombose venosa profunda (TVP) ou embolia pulmonar.

Cirurgia de grande porte recente (especialmente nas últimas seis semanas) ou trauma.

Câncer ativo (neoplasias em atividade).

Trombofilias conhecidas (distúrbios genéticos ou adquiridos de coagulação).

Mobilidade limitada ou paralisia (hemiparesia).

2. Passageiros de Risco Moderado ou Específico

Existem condições que, embora não sejam de risco extremo, aumentam significativamente a suscetibilidade à trombose durante a imobilidade do voo:

Gestantes e mulheres no pós-parto: O risco de TEV em grávidas pode ser 5 a 10 vezes maior em voos de 4 horas.

Uso de hormônios: Mulheres que utilizam anticoncepcionais orais ou terapia de reposição hormonal possuem um risco aumentado (em alguns estudos, até 40 vezes maior durante o voo).

Obesidade: Passageiros com IMC ≥ 30 kg/m², especialmente se viajarem em assentos na janela.

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